segunda-feira, 15 de abril de 2019

Cinco passos para melhorar o Português

Walter Mendes*
(CRIADO em 15/04/2013; ATUALIZADO em: 28/09/2013 - inclusão de subtítulos e dicionários para smartphone.)

Os matemáticos não precisam disto, os engenheiros conseguem viver sem e os advogados pouco se importam: escrever e falar de forma correta, interessante e eficaz. Se você escolheu fazer Jornalismo ou Publicidade, você escolheu usar as palavras para informar e influenciar os outros em seu trabalho no dia a dia da profissão. Mais cedo ou mais tarde você vai viver na pele (quem sabe até já passa por isso!) o drama retratado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade:

"Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Enquanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça."
(O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade)

Dicionários recomendados
Como vencer essa luta e ainda "apanhar algumas para nosso sustento"? O primeiro passo é conhecer o adversário: tenha um minidicionário por perto para consultar sempre que bater a necessidade. Como um professor disse certa vez, o dicionário não é o pai dos burros, porque os burros o dispensam. Os inteligentes recorrem a ele na hora em que surgem dúvidas sobre o significado de uma palavra, sua forma correta, sinônimos, antônimos, conjugação e uso de verbos difíceis etc.

Minidicionários – Há vários minidicionários no mercado, mas nem todos são igualmente recomendáveis. O melhor e mais completo que temos hoje no país é o Minidicionário Houaiss. (Ponha seu lado mineiro para fora e pronuncie UÁIS mesmo, pois o autor era filho de libaneses e não de americanos; nada de RAUÊIS, portanto, como alguns erroneamente fazem!) O Minidicionário Aurélio é bom e virou sinônimo de dicionário no Brasil, mas deve ser sua segunda opção na hora da compra, pois ele prefere dar sinônimos em vez de explicar as palavras em grande parte de suas verbetes.

Dicionários online – Embora eu não recomende a compra de suas versões impressas, os dicionários Caldas AuleteAurélio (brasileiros), Priberam e Porto Editora (portugueses) têm versões online para consulta. Se sua dúvida for meramente como se conjuga este ou aquele verbo, pode recorrer aos serviços do Verbix.com ou do Conjuga-me.

Dicionários para smartphone – Há 2 opções recomendadas para os usuários de iPhone, iPad e Android. A primeira, uma versão PAGA do Dicionário Aurélio para iPhone e iPad e Android. A segunda, uma versão GRATUITA do excelente Dicionário Priberam para iPhone e iPad e Android.

Português além dos livros
O segundo passo é estudar as estratégias do seu adversário, conhecendo os segredos por trás das palavras, pouco a pouco, dia a dia. Do mesmo jeito que não dá para aprender a nadar sem entrar na água nem na primeira vez em que se entra nela, não espere melhorar seu conhecimento e domínio das normas gramaticais e de um bom texto sem esforço nenhum da sua parte. Um lutador investe bastante tempo no seu preparo, e assim também deve ser na luta com as palavras. Antes de sugerir um programa mais avançado de treino, quero apresentar alguns exercícios mais simples para você iniciante que quer dominar a língua de Camões:

1. Visite o Museu da Língua Portuguesa (quando estiver em Sampa) e/ou a Academia Brasileira de Letras (quando for ao Rio de Janeiro).

2. Assine a lista "Português no Facebook" – que reúne diversas páginas dedicadas à língua pátria na rede do Mark Zuckerberg: https://www.facebook.com/lists/10200570179366260

3. Assista no Youtube às video-aulas de GramáticaRedação e Literatura do Vestibulando Digital, um programa exibido na TV Cultura nos anos 1990.

4. Procure na video-locadora ou no torrent 15 filmes baseados em clássicos da Literatura Brasileira.

(Bônus: aumente ainda mais seus conhecimentos vendo 25 filmes que abordam eventos da História20 filmes sobre temas da atualidade15 filmes sobre meio-ambiente5 filmes sobre a carreira de jornalista e 7 filmes sobre grandes guerras.)

Colunas de Português na imprensa 
Talvez você ainda não saiba, mas vários jornais e revistas brasileiros abrigam em suas páginas especialistas que ensinam tópicos, curiosidades e macetes de Língua Portuguesa aos leitores. Os mais conhecidos e recomendados são os seguintes:

Dad Squarisi, do Correio Braziliense

Sérgio Nogueira, do Globo

Sérgio Rodrigues, da Veja

Pasquale Cipro Neto, da Folha de São Paulo link 1 e link 2

Cláudio Moreno, do Zero Hora

Crie uma pasta de favoritos no seu navegador e adicione esses links para visitá-los regularmente (CTRL D no Windows e COMAND D no Mac). Você pode igualmente adicionar essas páginas ao seu leitor de RSS, se você já conhece e usa tal tecnologia.

Também sugiro visitas regulares ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. É um site português com artigos, dicas e dúvidas interessantes sobre a nossa língua nos dois lados do Atlântico, além de conscientizar sobre as peculiaridades do português europeu. Só para citar exemplos do site, usa-se participar DO jogo, enquete e registRo (Brasil) e inquérito (também significando pesquisas de opinião), participar NO jogo e regisTO (Portugal).

Livros para sua biblioteca
Chegou a hora do terceiro passo, o nível mais avançado de seu treinamento: investir em um bom material de treinamento.

Gramáticas – Para isso, você deve adquirir gramáticas (para ter um texto correto) e livros de estilo (para ter um texto interessante e eficaz). Um estudante ou profissional de Comunicação Social deve ter pelo menos 2 gramáticas na sua biblioteca: uma de nível médio (para revisar, de vez em quando, as coisas que esqueceu) e outra de nível superior (para consultar o índice remissivo e tirar aquela dúvida que a versão mais simples não aborda). Seguem abaixo os títulos recomendados em ordem de prioridade para compra:

1. CIPRO NETO, Pasquale e INFANTE, Ulisses. Gramática da língua portuguesa. Ed. Scipione. (nível médio; excelentes explicações e exercícios)

2. CUNHA, Celso; CINTRA, Luiz F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Ed. Nova Fronteira. (nível superior; a melhor existente; aborda português de Portugal e do Brasil; com versão simplificada na internet)

3. BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Ed. Lucema e Ed. Nova Fronteira. (nível superior; 2ª melhor no mercado; equilibra bem a gramática tradicional com os mais recentes estudos do português)

4. MESQUITA, Roberto Melo. Gramática da Língua Portuguesa. Ed. Saraiva. (nível médio; bastantes exemplos e quadros)

Livros sobre a arte de escrever – Com as gramáticas, você terá mais armas para enfrentar seu adversário. Mas é preciso também dominar a arte e a técnica na luta contra as palavras: se seu interesse é melhorar o texto em si, tornando-o não apenas correto mas também interessante, corra atrás dos seguintes materiais (em ordem crescente de importância e aprofundamento):

1. BLICKSTEIN, Izidoro. Técnicas de comunicação escrita. Ed. Ática.

2. Manual de Estilo Editora Abril: um manual prático de redação para jornalistas, escritores, editores, estudantes e profissionais. Ed. Nova Fronteira.

3. FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para Entender o Texto: Leitura e Redação. Ed. Ática.

4. SQUARISI, Dad; SALVADOR, Arlete. A arte de escrever bem. Ed. Contexto.

5. SERAFINI, Maria Tereza. Como escrever textos. Ed. Globo.

6. GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna. Fundação Getúlio Vargas.

Manuais de redação – Não esqueça também dos manuais de estilo e redação abaixo, que vão ajudar você na hora de tirar alguma dúvida mais imediata no seu texto:

1. MARTINS, Eduardo. Manual de Redação do Estado de São Paulo. (pdfonline e online 2) (esgotado, destaque para o capítulo "Instruções gerais" e os "Os cem erros mais comuns" {99 na verdade, já que o trema foi abolido na reforma ortográfica}, além de trazer as dúvidas mais comuns em ordem alfabética para facilitar a consulta).

2. BRASIL. Presidência da República. Manual de Redação da Presidência da República (pdfdoc e online); (destaque para os capítulos 2 {sobre como escrever ofícios, memorandos e textos afins} e 3 {sobre pontos de ortografia e gramáticas}).

Você já 1) identificou seu adversário, 2) estudou suas estratégias de batalha e 3) investiu num bom material de treinamento. O quarto passo para vencer a batalha contra as palavras é aprender com os grandes lutadores!

Na prática, isso significa ler, reler e "treler" o que os mestres e campeões têm produzido nos embates com o português: leia bastantes contos, crônicas, artigos, novelas, romances, reportagens, editoriais, livros-reportagem etc. Você pode até gastar 10 ou mais horas por dia concentrado em gramáticas e manuais de estilo. Mas isso jamais vai se comparar a 20 minutos dos seus horários de intervalo lendo grandes jornais, revistas semanais de informação e – especialmente – bons escritores modernos, sejam eles brasileiros ou estrangeiros traduzidos para nosso idioma.

Raramente você vai pensar nos casos facultativos e obrigatórios de crase, na regência de verbos comumente errados ou nas diversas regras de acentuação das paroxítonas na hora de escrever e revisar o seu texto. Entretanto, se você tiver o hábito de ler, reler e "treler", seu cérebro vai saber usar a crase, o complemento exigido pelo verbo e onde cai o acento na palavra. Talvez não saiba explicar os porquês, é verdade. Mas só de "bater o olho" no que escreveu ou ouvir a frase em voz alta, você saberá trocar o que estiver errado e fazer o texto que todo jornalista e publicitário deve almejar: correto, interessante e eficaz.

E agora? Agora, Rocky Balboa, é hora do quinto passo: entre no ringue do texto, vença a luta contra as palavras e erga bem alto seu troféu: um texto correto, interessante e eficaz.


Filme Rocky Balboa 6 - Cena do Treinamento

"Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate."
(O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade)

Você não vai jogar a toalha a essa altura do campeonato e virar um matemático, engenheiro ou advogado, vai?

*Walter Mendes, mestre em Literatura pela UnB e doutor em Língua e Literatura Francesa pela USP, é professor dos cursos de Letras e Jornalismo no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Engenheiro Coelho. Formado em Jornalismo, também é tradutor freelance de textos do francês e inglês para o português e foi professor de Português para vestibulandos em colégios da rede particular durante 5 anos.
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terça-feira, 15 de abril de 2014

Americanos, norte-americanos ou (argh!) estadunidenses?


Estava lendo um artigo até interessante, mas perdi metade do interesse quando encontrei "estadunidense" no subtítulo. É tão difícil entender...

... que o nome do país "Estados Unidos da AMÉRICA", quer gostemos ou não, é AMÉRICA e seus habitantes são AMERICANOS?

... que existe a segunda opção "norte-americano", consagrada pelo uso em português, embora seja inexato (por excluir os habitantes do México, Canadá e Groenlândia) e ineficaz (os próprios canadenses chamam os vizinhos ao sul de... americanos)?

... que o vizinho deles ao sul do Rio Grande tem por nome oficial "Estados Unidos MEXICANOS" e nosso país foi "Estados Unidos do BRASIL" nas cinco constituições republicanas de 1891 a 1967, mas nem por isso mexicanos e brasileiros jamais foram chamados de "estadunidenses"?

... que "Estados Unidos" não é não o nome do país, mas uma forma de organização política, reforçando a unidade territorial e o sistema federativo?

... que o contexto elimina a dúvida se se trata do país (Congresso Americano) ou do continente (Jogos Pan-americanos)?

... que existe diferença entre "América" (o país) e "AméricaS" (o continente formado pelas AméricaS do Norte, Central e do Sul)?

... que a atual Turquia já foi chamada de Ásia Menor na Antiguidade e Idade Média, mas nem por isso os demais habitantes do continente deixaram de ser asiáticos?

... que "estadunidense" tem motivação mais política do que linguística ou histórica, sendo um termo carregado de menosprezo e ódio ao povo e à política dos Estados Unidos, tendo fortes sentimentos de antiamericanismo nutridos por ideologias de esquerda?

Então, pessoal, usem preferencialmente "americano" – é o mais correto, exato e sensato. Se acharem o temo muito restritivo, petulante ou desagradável, fiquem à vontade para dizer "norte-americano". Deixe "estadunidense" para quem deseja, ainda que secreta ou inconscientemente, jogar uma bomba nuclear no Aeroporto JFK ou reerguer o Muro de Berlim no meio do mar entre Cuba e a Flórida.

Foto: Marinheiros americanos estendem uma enorme bandeira americana num campo, antes de um jogo de beisebol na Califórnia (EUA) || Mike Blake/Reuters || abril de 2013.
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sábado, 5 de abril de 2014

TCC - Bancos de teses e artigos

Na hora de elaborar o TCC, é importantíssimo consultar o que já foi publicado em torno do assunto que se pretende estudar. Não para plagiar obras alheias, mas para encontrar trabalhos para citar, perspectivas para ampliar e autores para fundamentar as pesquisas para o projeto e redação da pesquisa. Na lista abaixo encontram-se sugestões de bancos de teses e artigos úteis aos formandos na elaboração do TCC.

Pesquisa de artigos

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Este, esse, aquele: como usar corretamente

ESTE, ESSE, AQUELE: como usar

OBSERVAÇÕES PRÉVIAS: 

1) A distinção entre ESTE e ESSE é um tanto quanto artificial, pois a linguagem informal e oral usa-os  indiferentemente, bem como é e era ignorada por escritores portugueses e brasileiros do passado e da atualidade. A gramática normativa, entretanto, os diferencia e eles fazem diferença na interpretação textual como veremos nos exemplos a seguir.

2) Formas derivadas como DESTE, DESSE, DAQUELE, NESTE, NESTE, NAQUELE, ISTO, ISSO E AQUILO seguem a mesma lógica de ESTE, ESSE, AQUELE.

A) PRIMEIRO USO: REFERÊNCIA NO ESPAÇO#
ESTE => perto de MIM*
ESSE => perto de VOCÊ
AQUELE => longe de MIM e de VOCÊ

Este brinco na minha orelha é meu.
Onde você comprou esse brinco que você está usando agora?
Aquele brinco na vitrine é muito bonito, não acha?

*ESTE refere-se igualmente ao lugar/ponto em que alguém está:
Este apartamento, este local, deste país, nesta tese, este livro etc.

# Cá e aqui equivalem a ESTE; aí, a ESSE; lá e ali, a AQUELE.

B) SEGUNDO USO: REFERÊNCIA NO TEMPO

ESTE => dentro do tempo corrente
ESSE => fora do tempo corrente, no passado ou no futuro
AQUELE => tempo distante no passado ou no futuro

Este mês (o mês atual) vou comprar um sapato novo.
Pretendo comprar meu carro zero ainda este ano (o ano que vivemos).
Em 30 dias vamos começar a colheita. Esse mês vai ser de muita fartura!
Em 1500 Cabral desembarcou no Brasil. Naquele ano começou o domínio português nas Américas.

C) TERCEIRO USO: REFERÊNCIA NO TEXTO

1.
ESTE => o que VAI SER dito
o que JÁ FOI dito <= ESSE*

Esta é a solução para muitos problemas brasileiros: educação.
Estes são dois problemas graves: desemprego e violência.

O desemprego e a violência aumentaram: esses problemas não foram resolvidos conforme a promessa do presidente na campanha.
Elaboração do plano anual: foi esse o assunto discutido durante a reunião.

*TAL pode substituir ESSE ou dar caráter indefinido ao substantivo que acompanha:

Ele matou a mulher com 3 facadas depois de violentá-la na rua. Tal tipo de homem (esse tipo de homem) merece sofrer muito na cadeia.
Os dois começaram a trocar farpas e acusações no meio do jantar. Para mim, tais assuntos (esses assuntos) não devem ser discutidos na presença de visitas.

Tal dia e tal hora vamos ter a reunião.
Tal pai, tal filho.

2.
ESTE => o 2º de 2 elementos citados*
AQUELE => o 1º de 2 elementos citados

Houve uma guerra no mar entre corsários da França e Inglaterra: estes [desnecessário dizer que são os corsários ingleses] venceram aqueles.
Música de câmara e ópera são as suas preferidas: esta, porque mexe com seus sentimentos; aquela, pelos efeitos relaxastes.

Eram duas irmãs, Josefa e Maria: esta (Maria, no caso), a loira; e aquela (Josefa), a morena.
Na sala de aula há dois alunos que se destacam – Pedro e Marcos. Este por seu jeito extrovertido, e aquele pelo seu jeito educado.

*Pode-se usar ESTE simplesmente para se referir ao último elemento citado (sem repetir os 2 elementos) ou no lugar de ELE para evitar ambiguidade:

Quando o rei D. João V faleceu e D. José ocupou o trono, este recorreu a Sebastião José – o Marquês de Pombal – para ser Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros.

(Com ‘ele’ no lugar de ‘este’, à primeira vista poderíamos pensar ter D. João V, e não D. José, nomeado Sebastião José ministro antes de morrer.)

Macpherson dirige sua crítica a Rawls quando este admite serem os princípios éticos da justiça econômica capazes de regular o mercado.

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